Vida! Como
viver? O que ser? Qual ética adotar? Que manual seguir? Quais leis obedecer? E
principalmente, quais quebrar? Estratégias? Manuais? Guias? Detonados?
Você sabe a resposta! Ou melhor, a ausência delas! Mesmo assim você não se importa o suficiente para escrever você mesmo recomendações para a humanidade com seu conhecimento coletado até então. Nem mesmo um “o que não fazer e boa sorte”. Aliás, mesmo que haja um manuscrito assim, você leria? Qual foi o último autoajuda que você pegou para ler? Então não lamente, apenas aproveite as possibilidades do futuro incerto e do seu poder de tentar fazer algo sobre ele, pois se até mesmo o bater de asas de uma borboleta pode causar um tufão, qual efeito dominó você não poderia causar?
Esse seria
talvez um pensamento interessante de ser analisado, caso não fosse tão
rapidamente ignorado. Isso porque nos cansamos, física e mentalmente, e apesar
do desejo de mudança, a inércia nos traga e sabemos que os atos repentinos e
inconsequentes podem vir a trazer consequências que nos deixarão em uma
situação pior do que a do atual comodismo.
Então evitamos
mudanças repentinas e também não planejamos uma mudança, por que, como dito,
estamos cansados. Mas quando não estamos cansados aproveitamos para sermos
produtivos naquilo em que já estamos inseridos, o que nos traz a um “pensamento
coletivo individual”:
Você gera um
sentimento de que é especial de alguma forma, em seu interior, com algum poder
latente, mas ainda adormecido, que será clamado em um futuro próximo, de forma
a precisarem de você para cumprir uma missão. Você é importante e será
fundamental para salvar o mundo, com alguma habilidade que só você será capaz
de exercer.
É este
sentimento de ser especial de alguma forma, apesar de todos estes tolos que te
rodeiam não notarem seu potencial e te subestimarem, que, lá no fundo, é o que
te faz levantar da cama.
Bem, esse na
verdade é o enredo e o estopim de quase todas as histórias. Tanto porque uma
história que não é sobre algo ou alguém importante, dificilmente nos
interessaria, uma vez que já vivemos demais com o ordinário. Literalmente no
nosso dia-a-dia. Logo, gostamos do “extra-ordinário”, e como queremos o
extraordinário em nossas vidas, queremos ser importantes e especiais. Quando
isso ocorre com todos, temos um “pensamento coletivo”, porém um que visa apenas
o próprio “indivíduo”, porque se todo mundo for especial, na verdade ninguém é
exatamente especial, apenas mais um ser ordinário entre tantos outros, sendo no
máximo diferente entre todos os seres únicos deste universo.
Contudo, não
seria mais reconfortante assumir não ser uma pessoa especial, logo o universo
não depende que você seja algo específico, para que ele possa ser salvo, então
você não tem exatamente responsabilidade de ser nada. Você pode ser o que você
bem entender e o que bem quiser, justamente por não ser especial e ninguém
estar contando com isso.
Se acha que
gosta de plantas, tente ser um jardineiro ou um biólogo, mas se no meio do
caminho descobrir que não é exatamente com isso que quer seguir, vá estudar
matemática, ou culinária, tentar ser enfermeiro ou marqueteiro. As mudanças não
serão fáceis e resultados não virão facilmente, mas lute e conquiste. É assim
que funciona. Tentando e arriscando.
Como já
inferido anteriormente, não há um guia de como viver (su)a vida, logo, se me
permite, sugiro que crie suas próprias regras para si mesmo, pois formulá-las
te ajudará a explicitar sua própria ética, seus princípios e mecanismos
internos, além de ajuda-lo a evitar conflitos internos e a se manter fiel
naquilo que acredita ser o certo ao longo de sua jornada, pois ocasionalmente
haverá dúvidas e possíveis arrependimentos sobre se você fez uma boa escolha ou
decisão. E se você seguir com dois princípios conflitantes terá pensamentos
conflitantes, remorsos e poderá se deixar ser induzido nos dilemas entre o que
é fácil e o que é certo.
Obviamente
mudamos com o passar do tempo e se temos a intensão de melhorarmos, podemos
melhorar nossas próprias regras também, por isso é sempre bom tê-las de forma
clara, de forma a não acabarmos criando princípios que possam se contrapor
durante essas alterações.
Eu poderia
compartilhar algumas de minhas regras pessoais, mais muitas possuem um valor
aderido da experiência de criação e uso de minha pessoa, logo mesmo que ditas e
explanadas soarão tolas. Contudo não faz mal eu compartilhar algumas como “se
atente ao óbvio” (pois você vai se arrepender se deixar o óbvio passar) ou “não
tome decisões quando cansado ou com raiva” (adie de alguma forma o momento de
decidir) ou até “visualize o mesmo sob diferentes perspectivas” (não existe
apenas uma verdade). Mas o que neste momento tem mais relevância para este
texto é minha regra número um: tenha sempre em mente: “imprevistos acontecem”.
Simples.
Você não será jamais capaz de prever tudo a sua volta o tempo todo. Você será
surpreendido constantemente ao longo da vida. Ficará incrédulo, se
decepcionará, ficará confuso, negará e às vezes ficará aliviado, feliz e
embasbacado. Não saber lidar com situações novas, entrar em colapso ou só ficar
nervoso é normal e, sinto informar, extremamente imaturo também. Logo ser
imaturo é normal? Não deveria, mas na prática é. Infelizmente. E essa é uma de
minhas grandes decepções com o mundo [klix
– olhar glossário].
Um
de meus maiores klixes é justamente
perceber que adultos são só crianças imaturas viciadas em sexo, desesperadas e
com responsabilidades. Engraçado, pois são desesperadas justamente por serem
imaturas, ou seja, não sabem lidar com situações que saem da zona de conforto
de suas criações. E o problema da imaturidade é que geram estes sentimentos
negativos exagerados que já conhecemos pela prática. (o
link direto entre o ódio exteriorizado com a imaturidade interna)
O
quão louco é olhar para o passado e ver relatos de famílias surtando, porque a
filha branca se apaixonou por um homem negro. O repúdio de muitos pelo
relacionamento de pessoas de classes diferentes (entre um nobre e um plebeu ou
entre um brâmane e um sudra). No começo do século XXI as pessoas enlouquecem
com a fuga das normas heteronormativas e de casais não héteros publicamente.
Mas como
contornar isso? Como seria realizar aquele meu sonho de criança (meu xilk) de viver em uma sociedade feita
por pessoas maduras, que erram constantemente, mas se mantem firmes em tentar
se conhecerem melhor e melhorarem, em que cada pessoa ao ver o erro e o
problema de outro ajuda a contornar e evita-los futuramente?
Mudar a causa
terá efeitos na consequência, logo se em momentos periódicos as pessoas
imaginarem possíveis futuros problemas elas deixarão de cair cada vez menos em
situações totalmente inesperadas e já estarão minimamente preparadas para
reagir a elas. Se você sabe reagir bem a uma situação, você abandonou a imaturidade
em sua definição.
Se por
exemplo, você tem um emprego, imagine o que faria se fosse de repente demitido.
Se tem um carro, o que fazer se de repente o furtassem. Se tem um
relacionamento, o que faria se fosse traído. O que você faria se começasse uma
guerra hoje? E se houvesse uma invasão alienígena?
Esses
exercícios mentais são até interessantes e particularmente me distraem, mas
isso nos remete a regra número um: imprevistos acontecem! Meio século atrás:
Quem imaginaria smartphones? Quem
imaginaria os problemas advindos das redes sociais? Simplesmente não há como
prever todas as situações para você estar preparado emocionalmente a todas elas
(como um pai descobrir um filho gay). E esse é o ponto!
O
mundo muda. Novos tempos, novos hábitos, novas culturas. Dinamicamente seu
próprio corpo muda e se renova, logo nada mais normal que você mudar junto e até
sábio, eu diria, pois o princípio básico da evolução (e sobrevivência) é a
adaptabilidade. Logo você não precisa estar preparado para todas as situações,
basta estar preparado para aceitar as mudanças e preparado para se deixar
mudar. E nesse ponto a sociedade falha dentro de si. Em não aceitar as mudanças
(pois mudar é trazer o novo e o novo é sair da zona de conforto, logo mudar
pode ser desconfortante) e isso gera movimentos conservadores. Verdadeiras âncoras.
As pessoas não se ajudam a entender e enfrentar os sentimentos, elas só incitam
a falta de empatia ao diferente.
Se quiser
entender seus sentimentos, avaliar suas falhas e se melhorar: vá a um analista,
psicólogo ou psiquiatra. O que em uma sociedade bem resolvida, muitos casos não
necessitariam de tanto. Por exemplo, em um ambiente público, uma criança age de
forma imatura e começa a dar birra. É de se esperar nessa situação que alguém
converse com a criança para que tente entender sua revolta e explicar para a
criança de forma lógica os próprios sentimentos confusos dela e bons modos de
lidar com isso. Se já há alguém cuidando e explicando, os demais poderiam
ignorar a birra, para não incentivar a criança a enfrentar os problemas de
forma tão irracional (imaturamente).
Esse tipo de
educação, de desvendar sentimentos confusos e lidar de uma forma racional e
melhor com eles, deveria ser feito ao longo de toda a vida pela sociedade (com
aqueles que tem rodeiam, convivem e interagem). Mas não! As pessoas só apontam,
riem, filmam, fazem cara feia do tipo “está me incomodando”, repreendem e
ignoram uma educação sobre um indivíduo que vai conviver naquela mesma
sociedade.
Mais um
exemplo comum: uma pessoa vai participar de um evento ou uma situação em um
futuro breve e logo ela cria expectativas. Com certeza muitas dessas
expectativas vão ser quebradas (para pior) e esta pessoa com muitas
expectativas vai se frustrar diante da possibilidade de novos eventos e pode
até começar a ficar ansiosa com eles. A lição que as pessoas tiram disso é: “se
não quer se decepcionar, não crie expectativas”. Isso já é fantástico, pois
conseguiram identificar o problema (a causa), o sentimento (frustração) e o
jeito que a pessoa reagiu (negativamente). E ainda ofereceram uma solução.
Mas, me dizer
“não crie expectativas” é para mim a mesma coisa que alguém me dizer “não pense
em um elefante cor de rosa”. Isso é na verdade uma solução porca e não ajudou
em nada. Contudo, como se decepcionar com altas expectativas não é um problema
nada novo nem incomum, a sociedade como um todo já deveria saber lidar com isso
de alguma forma mais otimizada que pode ser ensinada.
Caso alguém
não consiga deixar de pensar no acontecimento futuro e se distrair com outra
coisa, a criação de expectativas já começou a ocorrer, então se vai criar
expectativas, porque não tentar criar “expectativas ruins”? Pois se for de fato
ruim, você já estava preparada para aquilo. Já se esperava. Se for melhor,
fantástico. Porque o sentimento de ter expectativas superadas é bem melhor. E
no cenário ruim, se as coisas já estão ruins como você já esperava que fosse,
aproveite o tempo em que não está se divertindo e procure os pontos específicos
que poderiam ser mudados para deixar aquilo bom e incrível. O que exatamente
não está fazendo deste acontecimento ser bom? Como você poderia fazer para que
fosse melhor? Tem algo que você pode fazer agora? Tem algo de bom que você pode
se apegar? Alguma nova lição?
Creio eu que
“criar expectativas ruins” e fazer um trabalho de detetive, estrategista e
arquiteto em cima da coisa ruim é muito mais satisfatório em cima do problema
de criar “altas expectativas sobre tudo e ser uma pessoa ansiosa”. Além de te
fazer reconhecer situações ruins muito antes (já em um convite) e recusá-las ou
sugerir como executá-las de forma melhor.
Como lidar com
a raiva? Como lidar com o nervosismo de falar em público? Como lidar com
estresse? Como lidar com momentos depressivos? [Lidar com seus sentimentos, não
se esquivar deles.] Como lidar com a saudade? Como lidar com klix? Como lidar com uma reprovação ou
um indeferimento? Como lidar com situações novas e inesperadas?
O como lidar
com o novo não tem como pré-requisito saber o que é o novo. Geralmente sempre
há uma resposta lógica que pode ser posta em palavras e em prática. E como
mostrado, nenhuma solução é única. Pode haver soluções melhores de lidar com os
problemas e por isso deveríamos conversar mais sobre isso e compartilhar nossas
soluções. Pois muitos dos problemas diários enfrentados não são nada novos para
a humanidade, nem raros, nem únicos.
E dentre
tantos sentimentos explorados e mal compreendidos, que é conversado, porém mais
idealizado do que discutido (“como lidar”) é o amor. O sentimento humano mais procurado e dizem ser o mais forte e
motivador de todos.
Eu não possuo respostas, nem soluções e
muito menos perícia para abordar o assunto, mas ainda sim gostaria de tentar
entender o amor e seus obstáculos. Além de compartilhar minha visão de mundo
amorosa e minhas idealizações.
Os nossos
sentimentos em geral precisam ser bem administrados, pois são eles os estopins
de nossas ações (ou falta delas). Em outras palavras, a origem de nossas
motivações. Como parar nossos deveres para procrastinar, pegar uma comida
gordurosa enquanto assisti um filme triste ou fazer uma coisa acontecer.
Portamos a
possibilidade de inúmeros sentimentos (tanto que para alguns deles nem palavras
formulamos ainda, o que torna difícil falar sobre eles, entendê-los e
processá-los). Alguns são tão complexos e se manifestam de formas tão
diferentes que uma só palavra apenas eu julgo ser tolice. E o amor é um
sentimento ótimo para demonstrar isso.
Apesar das
semelhanças e estarem no mesmo espectro de sentimento eu não julgo que um “amor
materno” é exatamente o mesmo sentimento de um “amor romântico”. Ambos são “amor”
sim. Ambos sentimentos são uma forte afeição em relação a um outro ser. De
gostar, de querer proteger etc. Mas ambos são “amor” no nosso idioma. São
sentimentos muito próximos. Sentimentos positivos. Mas não julgo ser o mesmo.
Assim como não julgo “saudade” igual “nostalgia” igual a “sentir falta”. São
sentimentos próximos, mas não o mesmo.
E não saber
identificar o que sentimos é o primeiro passo para lidar mal com ele. A maioria
das pessoas, por exemplo, não sabem diferenciar bem o sentimento de fome e
sede, que é tão básico e tão distinto. E temos até palavras bem diferentes para
cada um desses sentimentos. (Muitas
vezes procuramos “um doce”, quando na verdade nosso corpo só quer “água”.)
Não irei
destrinchar aqui os “tipos de amor”, pois eu precisaria de muitas palavras e
não vou ficar criando glossários e dicionários. Há pessoas com mais propriedade
para tratar do assunto e entender o porquê de haver amores tóxicos, egoístas,
fraternos, românticos, abusivos, religiosos, platônicos, próprios, altruístas e
tantos outros.
Como esse é um
dos assuntos mais antigos tratado pela humanidade, nada de novo posso
acrescentar além de compartilhar minha visão de relacionamento amoroso
romântico que almejo. Pois essa é a informação crucial que dedico a meu
público-alvo: meu eu do futuro. E aí Eu, já conseguiu algo próximo de seu
ideal?
Amar de forma geral é querer o bem
intensamente àquilo ou àqueles que te conquistaram de alguma forma e que passam
a ser importante para você. Aquilo que é importante para você passa a ser alvo
de sua proteção. Dependendo de seus princípios, você coloca um status de
“incondicional”.
Deve existir
inúmeros “gatilhos” emocionais que faça algo ou alguém te conquistar e te fazer
se apaixonar. Devo ter alguns destes gatilhos fora do lugar. Mas me utilizando
do parco vocabulário que temos eu diria que paixão está mais ligado ao desejo e
ao prazer que tangenciam o amor, do que o amor propriamente dito. Um dos tipos
de amor pelo menos.
Logo as
paixões estão mais relacionadas ao amor romântico (talvez) e, por conseguinte,
a sua orientação sexual. Logo você se apaixona por possíveis parceiros de cama,
onde se têm a oportunidade de expandir esse sentimento de amor.
Contudo a
sociedade em sua falência sempre gostou de por obstáculos e normatizar tudo, de
forma a ser facilmente digerível. Você pode se apaixonar e pode amar, mas desde
que seja pelas pessoas certas.
As pessoas
procuram naturalmente o prazer e temos até impulsos fisiológicos para isso,
porém devemos reprimir nossos impulsos e quem somos, para nos encaixar em uma
expectativa criada por outras pessoas que simplesmente negam o amor. A grande
moral perturbada que gera tabus.
Anacronicamente
vemos que esses obstáculos não fazem o menor sentido, mas há tantos outros que
precisam ser discutidos, porque o simples fato de aceitar o amor é muito para a
cabeça de muitos. O fato de pessoas com quantidades diferentes de melanina se
relacionar, ou de terem nascidas em países diferentes, ou em classes-sociais
diferentes, ou possuírem religiões diferentes, ou serem do mesmo sexo ou mesmo
terem uma grande diferença de idade, causar uma reprovação da sociedade é prova
disso.
E se em um
futuro tivermos contato com outra espécie racional e inteligente similar com os
humanos, haverá o obstáculo social de aceitar o amor entre essas espécies assim
como há o repudio de aceitar pessoas que são extremamente apaixonadas por
objetos e seres inanimados.
Basicamente há
um problema de se aceitar o amor quando ele não se apresenta em uma forma que
você consegue reconhecer. E isso é triste, pois limita tanto sua compreensão de
amor.
E olha que não
estamos nem falando de desejos, pois falar sobre fetiches seria um absurdo!
Repulsivo até! Pensando sexualmente, há quem goste de pessoas idosas, há quem
goste objetos, há quem goste de animais e até quem goste de crianças.
Particularmente o de crianças é o mais triste, pois como não há o consentimento
(e mesmo que haja, como não saber se não é um consentimento induzido), os
portadores desses impulsos não poderão nunca realiza-los e tristemente nem
discuti-los sem serem demonizados, pois “não é algo que se discuta, apenas que
se repudia”. (Não que haja muito consentimento na zoofilia também, mas se não é
humano não nos importa o consentimento.)
Mas vamos nos
ater ao amor. Uma pessoa só pode amar uma única pessoa? Uma única pessoa por
vez, pelo menos. Não é meio ridículo que entre mais de 7 bilhões de pessoas,
você vai se apaixonar por apenas uma pessoa (por vez, pelo menos)? Não falo nem
sobre você dar a incrível sorte de achar sua alma gêmea durante seu tempo de
vida sem ter entrado em contato nem com 1% da humanidade existente em seu
tempo. Isso porque o conceito de alma-gêmea, de ser seu par romântico perfeito
destinado é tão contrassenso para mim, e por consequência casamentos e
amor-eterno.
Em minha
idealização eu acredito que as pessoas se relacionam para fazer bem umas as
outras. Qualquer relacionamento. E quando se ama alguém você quer que ela seja
feliz e que tenha experiências ótimas e incríveis. Se possível você mesmo
gostaria de proporcionar estas experiências boas a quem você ama. Porém em um
amor não correspondido, se você realmente ama a pessoa você a deixa ir e ser
feliz com quem ela escolher (e o máximo que você pode fazer é observar a
trajetória dela).
Contudo se um
amor é correspondido, porque teríamos que prender a pessoa e não a deixar viver
livremente, como se faria em um amor não-correspondido? Se você quer prendê-la
para si, talvez você não a ame tanto assim, para priorizar sua posse ao invés
de sua felicidade.
O problema que
a sociedade nos ensina que se relacionar amorosamente envolve exclusividade. A
prioridade não é ter pessoas que vão fazer bem uma a outra, é ter com quem
fazer sexo quando quiser. Um parceiro fixo. Alguém que supre suas carências
diárias.
Porém se você
ou seu/sua parceiro(a) for de repente beijado por um outro em uma festa, ou
surgir uma oportunidade de um sexo interessante ou simplesmente sair para um
evento inesperado. A pessoa deve se reprimir, se privar de se sentir bem e ter
uma boa experiencia? Sim, de acordo com a sociedade, pois isso é ser fiel.
Fidelidade basicamente é um contrato informal sobre uma pessoa não trair a
outra. E elas escolhem se privar de todo e qualquer prazer que o mundo possa
oferecer se não for por via do parceiro em questão. Isso é amor?
Para mim amor
é querer que a outra pessoa seja feliz, mesmo que não seja eu a proporcionar
esta felicidade. E por amar não quero limitar os prazeres e a felicidade de
quem amo, logo esse tipo de fidelidade tradicional não me faz sentido.
Felizmente,
como dito, fidelidade é um contrato acordado entre as partes que se relacionam.
Infelizmente os envolvidos nesses relacionamentos não falam aberta e
diretamente sobre esse contrato no começo de suas interações interpessoais e
fica então assumido o padrão. E o padrão de contrato é aquele socialmente
construído e acho que a este ponto do texto não preciso ressaltar que o que a
sociedade tem construído não é dos melhores.
Porém vale a
pena analisar este contrato. Ou melhor, a quebra dele: a traição. Pois ao ler a
obra de Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser, tive uma noção melhor
sobre o amplo aspecto que é a traição e que na verdade basicamente só existe
uma: a traição da confiança.
Quando alguém
traí, no termo popular da palavra, significa que ela fez sexo com alguém que
não seu parceiro. Mas isso basicamente é trair a confiança de seu parceiro
sobre a existência de exclusividade de suas relações sexuais.
Quando se
expande a relação de “traição” para outros contextos isso vai ficando mais
claro, como uma traição entre amigos ou entre familiares.
Curioso
ressaltar também que só pode ser traído aqueles que possuem algum laço de
confiança. Não tem como um inimigo de trair. Só aliados te traem. Logo espere
sim que amigos vão te trair, pois só eles podem fazer isso.
Contudo uma
cena de meu seriado favorito me trouxe uma questão. Devemos perdoar as
traições?
Segue a cena
transcrita (episódio “Dark Water” de “Doctor Who”):
Clara Oswald: What do we do now? What happens now, you and me?
Doctor?
The Doctor: Go to hell.
Clara Oswald: Fair enough. Absolutely fair enough.
[starts to leave]
The Doctor: Clara? You asked me what we're going to do. I told
you: we're going to Hell. Or wherever it is where people die. If there is
anywhere. Wherever it is, we're going to find Danny, and if it is in any way
possible, we're going to bring him home.
Clara Oswald: You're going to help me?
The Doctor: Well, why wouldn't I help you?
Clara Oswald: Because of what I just did, I just...
The Doctor: You betrayed me. You betrayed my trust. You betrayed
our friendship. You betrayed everything... you let me down!
Clara Oswald: Then why are you helping me?
The Doctor: Why? Do you think that I care for you so little that
betraying me would make a difference?
Apesar de toda
a manipulação, ameaças e concretização delas que antecede essa cena, o perdão
sobre a traição não exigiu nem um pedido de desculpas. Ele apenas diz que seu
amor é maior que a traição dela. E eles são “apenas” amigos. (Preciso colocar
aspas em “apenas”, pois precisei usar a palavra “amor”, devido ao parco
vocabulário).
O que traz a
pergunta: não seria amizade um tipo de amor? Sim! Fato já conhecido e inclusive
cantado por Rita Lee: “amor sem sexo é amizade”. Curioso, pois a amizade
geralmente é o que permeia e enlaça os demais amores, então em palavras eu
poderia colocar que a transição entre esses laços é razoável pelo elemento
comum, porém abstraindo aos rótulos e percebendo os elementos em comum
mostrando o mesmo, apenas em uma perspectiva diferente, eu diria que amor é
amor e novamente a sociedade tenta barrar e limitar este contato. Engraçado
quando se pensa no termo inventado “amizade colorida”. Demais amizades são
cinzentas? Talvez sejam devido a repressão.
De minha
perspectiva quanto mais você gosta das pessoas (e neste caso você pode incluir
o amor romântico para abstrair melhor, apesar de estar falando de amor em geral)
mais você quer ficar perto delas, compartilhar experiência com elas e ter algum
tipo de contato. Um contato corporal através de um abraço, de sentir seu corpo,
de poder interagir com o corpo alheio, poder fazer uma massagem para que ela se
sinta bem e relaxada, trazer estímulos sensoriais através de todos sentidos,
podendo sentir o calor daquele corpo, tocando, esfregando, roçando,
pressionando ou simplesmente segurando e mantando contato.
Todo aquele
sentimento que há em você quer se exteriorizar e se expressar! Quem nunca quis
apertar um filhote bem forte e mesmo assim lutava com o dilema de não querer
fazer mal a ele.
Obviamente o
amor não precisa de sexo para demostrar afeto físico, apesar de ser uma forma ***
de expressar isso, mesmo para seu cônjuge (que é um status social). Assim como
o sexo pode ser também só para proporcionar prazeres, alegrias, se
desestressar, relaxar e até se exercitar, mesmo por alguém que não se tenha
afeição, mas que tenha algo a incitar seu interesse. Fisiologia! Cada um tem
sua definição do que é belo, do que é sexy, do que é atraente, do que traz
tesão... Por isso fazer sexo talvez seja tão traição quanto dançar ou qualquer
outra forma de expressão corporal. O que ressalta meu ponto de que traição é
algo exclusivamente relacionado a confiança, mas antes de prosseguir nesse
caminho que finalizará o texto, é interessante analisar a situação oposta.
A rica
demonstração de amor sem o contato sexual. Sim, amizade. Porém, mais que isso.
Durante os séculos passados, a sociedade ocidental abrigou muitos gays que não
poderiam se revelar. Ocasionalmente essas pessoas acabavam se casando com
pessoas do gênero oposto, para manter aquela farsa social. Todavia, não se
casavam com qualquer um. Se casavam com alguém que possuía um grande afeto (uma
amiga ou um amigo muitas das vezes) e esses se relacionavam. Houve casos,
porém, de durante o casamento (ou até antes) os gays revelarem sua sexualidade para
seu cônjuge e isso não acabar com o matrimônio, ao contrário, eles se tornavam
cumplices, pois de fato havia amor entre eles.
Talvez não o
chamado ‘amor romântico’, de que conhecemos, pois esse embute sexo, mas era um
amor tão grande, que queriam tanto o bem de um pro outro, que prometiam sempre
cuidar um do outro, em qualquer dificuldade, inclusive acobertando seus desejos
sexuais da sociedade moralista. E como se permitiam se envolver com outras
pessoas fora do matrimônio, encontravam às vezes outros amores e tinham que
enfrentar o outro problema social: poderiam amar mais de uma pessoa ao mesmo
tempo? Profundamente? Não preciso responder.
Engraçado
também, que muitos homossexuais em casamentos héteros fazia sexo também.
Compreensível, quando segredo, que faziam sexo para manter a farsa, porém
muitos, quando viravam cúmplices deitavam sobre a mesma cama e mantinham aquele
contato íntimo. Muitas das vezes não havia penetração, mas um ajudava no prazer
do outro. Talvez o sexo mais completo.
Todavia, tudo
que tem um começo, tem um fim. Afinal, estamos falando de vida. Logo a morte é
algo na porta ao lado. E fins de relacionamentos são mais que possibilidades
plausíveis. Mas precisa um fim ser ruim? No México, por exemplo, no Dia dos
Mortos há uma grande celebração, porque afinal fins trazem recomeços e seguir
adiante é deixar algumas coisas para trás, mas nem por isso a deixa tem que ser
triste.
A princípio as
pessoas entram em relacionamentos, pois acreditam que juntos conseguirão algo a
mais que sozinhos seria difícil alcançar. Sinergia! Em um relacionamento
saudável os envolvidos crescem juntos, pois um tem o que oferecer ao outro e há
uma troca constante. Mas por mais que esta equipe (amorosa, no caso) funcione
bem, que haja respeito, afeto, colaboração, cumplicidade e aprendizado, além de
ótimas experiências ao longo do caminho, chegará um tempo em que a contribuição
de crescimento um para com o outro já não seja tão significativa.
As pessoas têm
uma quantidade finita de coisas que podem transmitir, pois essa transmissão é
um compartilhamento de si para o próximo e somos seres finitos. A magia da
coisa é que estamos em constante processo de mudança, nos renovando e
aprendendo coisas novas, mas talvez aquele relacionamento já não faça tanto
sentido, por já não contribuir tanto um para com o outro. Há tantas outras
pessoas no mundo a fora que podem contribuir de formas diferentes para a vida,
que um termino nessa situação não seria algo mais que racional?
Comum que às
vezes só uma das partes queira o distanciamento, mas nem por isso, por mais
“repentino” que pareça à outra parte, eu poderia inferir que um relacionamento
“deu errado”. Porque ele já deu certo! Todos aqueles outros momentos em que
ficaram juntos e conseguiram produzir uma fagulha de felicidade no coração um
do outro foram momento que deram certo. Aquela coisa nova que você descobriu,
por causa dele. Aquela pequena ajuda concedida. Bastava um único fato positivo
para eu dizer: o relacionamento já deu certo. Seu horizonte se expandiu por
causa daquela pessoa, mesmo que neste instante ela já não a queira tão próximo
assim. Ela está indo buscar o que ela precisa e te dando espaço para que você
também siga por novos caminhos e estabeleça novos relacionamentos. Ou o
contrário, caso seja você a pedir o término.
Eu considero
um “bom término”, quando a amizade (esse forte vínculo) permanece mesmo após
terem concedido tanta intimidade e em seguida o privado dele. Pois infelizmente
amigos não podem nem se beijar na boca, logo há um recuo nas permissões de
intimidade física. Mas se um ainda quer o bem do outro e ainda se mantém
disposto a oferer ajuda nas mais difíceis circunstâncias, aquele amor chamado
amizade ainda está lá, que para mim é o que de fato importa.
Porém términos
são geralmente dolorosos. Não saberia analisar ainda esse aspecto da dor nem
dos motivos, mas me chama a atenção o da traição. Uma traição costuma destruir
relacionamentos. Questiono-me: deveria eu perdoar uma traição? Minha resposta reside
no coração daquele que me traiu. A dificuldade é justamente eu conseguir ver o
coração da outra através da névoa de minha dor. E só com o porquê, que poderei
então balancear e, mais do que responder, conversar e agir para ser coerente
com aquelas minhas regras lá de cima.
Como em todo
relacionamento e com aqueles que você se relaciona, ou seja, seus pais, irmãos,
parentes, amigos, namorados, amantes e inimigos, você deve conciliar todos os
seus sentimentos para com eles, sua situação atual junto com a situação deles e
então decidir o quão se aproximar ou se afastar será o melhor para ti. Talvez
não o que você queira, mas o que você precisa ou deve fazer. Como tudo isso é
muito subjetivo e não há de fato respostas únicas e certas, recomento você
frequentar mais a sessão de autoajuda. ;)
GLOSSÁRIO
Words are words, but not only
letters
Temos uma
grande capacidade de abstração e de formular raciocínio lógico, mas para
expressar isso para o mundo precisamos de palavras. Principalmente para ideais complexas.
Porém internamente utilizamo-nos dos recursos das palavras para conseguirmos
montar essas ideias complexas. Dar forma a elas.
Às vezes,
quando uma ideia complexa é muito recorrente ela vira uma palavra. Similarmente
fazemos muito isso com os sentimentos. Ao invés de descrever tudo o que estamos
sentindo através de várias palavras e construções, utilizamos apenas uma
palavra para referenciar a todas aquelas sensações daquele sentimento.
Essa
simplificação vocabular acaba virando mais um degrau no desenvolvimento de
ideias cada vez mais complexas, uma vez que você pode utilizar de muito pouco
(apenas algumas letras) para sustentar algo mais elaborado. Assim como fazemos
toda uma referência a um filme ou livro com apenas uma frase. Evocamos todo uma
história e um contexto para puxar um raciocínio ou um sentimento.
O problema é
que às vezes idiomas não contemplam todas as palavras que precisamos para nos
expressar bem, e no meio de muitas palavras esmiuçadas para explicar algo, como
um sentimento importante, acabamos distraindo o foco do assunto principal,
devido a tantas palavras despendidas para explicar um detalhe (crucial) do
assunto, que fará com que o produto final consiga transmitir um valor mais
próximo daquele que o autor desejava.
Devido a isso,
formo o glossário abaixo:
• XILK
Aquele
sentimento, quando criança, de expectativa e idealização de como é o mundo
adulto e como será às coisas quando você crescer. Similar ao sentimento dos
adolescentes de poder possuir independência alcançável quando atingir a
maioridade. (ex.: Achar que seus pais sabem tudo; Crer que todos os adultos
sabem o que estão fazendo; Pensar que imaturidade e ignorância é coisa de
criança e que todos se tornam maduros e sábios quando mais velhos)
• KLIX
A quebra da
expectativa XILK. A decepção com o mundo adulto. É descobrir que aquilo que
você imaginava quando criança não se concretiza ou não é verdade. (ex.:
Descobrir que seus pais são ignorantes em muitos aspectos, que os adultos não
sabem o porquê estão fazendo o que estão fazendo; perceber que há muitos
adultos idiotas, babacas e preconceituosos).
Nenhum comentário:
Postar um comentário