Feche seus olhos e continue lendo[rascunho]


               Na robótica descobri que uma das funções mais complexas e que requer grande quantidade de processamento é a visão. Assim como a visão computacional, a nossa visão humana requer grande esforço de nosso cérebro, pois os olhos conseguem transmitir uma quantidade absurda de informações do mundo externo e para lidar com tanto utilizamos muito de nossa capacidade cerebral para processar, de forma bem dinâmica, parte disso. Abstraindo o que julgamos ser o mais importante de cada frame.

              Por sorte conseguimos suspender e até desligar a visão quando necessário: fechando os olhos. Porém fazemos isso em momentos muito breves ou muito específicos no nosso dia, como durante o sono ou durante uma meditação. Contudo se abdicar da visão não é fácil devido ao hábito e o costume, pois é justamente esse sentido que geralmente nos dá a informação mais rápida e acurada sobre perigos externos imediatos. Logo, fechar os olhos requer certa confiança. Geralmente a confiança de que está em um local seguro, como no seu quarto, em cima de sua cama, longe de animais que rastejam, por exemplo.
               Concluímos então que caso queiramos utilizar um pouco mais de nossa capacidade cerebral para alguma abstração ou elaboração mais complexa de pensamentos, basta fecharmos os olhos e nos concentrar no problema em questão.
Contudo, às vezes conseguimos mergulhar fundo em nossos pensamentos de olhos bem abertos. Naqueles momentos em que olhamos para o nada, ou fixamos nossos olhos em algum lugar qualquer do espaço, ou quando desfocamos um pouco nossa visão ou mesmo apenas observando aquele pontinho no infinito, mais olhando para dentro do que pra fora. Nesses momentos, eu julgo que fechamos os olhos da alma para processar algo importante.
Quando fechamos os olhos da alma, nós não desligamos a visão, mas abaixamos seu nível de processamento. Continuamos enxergando, porém, ignorando boa parte do que estamos vendo, tanto porque fixamos nosso olhar em uma direção e logo não haverá muita coisa nova a ser analisada, todavia se surgir algo inesperado e emergente, estamos preparados para sair do transe e voltar a realidade para reagir e nos defender.
Interessante, pois são normalmente esses os momentos de devaneios (de sonhar acordado). Muitas das vezes alcançamos este estado de forma involuntária e inconsciente. Podemos resistir a tal impulso de transe e muitas das vezes até resistimos, mas outras vezes nos entregamos e nos deixamos levar por nossos pensamentos e não queremos desviar nossos olhos, para não voltar a realidade.
Julgo no meu achismo que estes momentos de devaneio são importantes para aliviar um pouco o estresse mental (o que incluí todo o processamento de visão que forçamos ter ao longo de todo o dia), porém estamos cada vez mais resistindo a eles, pois vejo cada vez menos pessoas olhando para o nada, o que foi substituído por pessoas olhando para telas de celulares e computadores.
Todavia para aqueles que se aventuram a fechar os olhos da alma enquanto acordados, com o passar do tempo conseguem entrar com facilidade neste estado de transe de forma voluntária e consciente no momento em que desejar e mergulham fundo dentro de si mesmos em exercícios de abstração maiores e mais concentrados do que fechando seus olhos orgânicos.
Agora feche os olhos e continue lendo. Ignore o que está ao seu redor agora e vá para seu mundo imaginativo. Faremos dois exercícios mentais breves:
Um: Você é uma criança, com uns oito anos de idade mais ou menos, e está indo em um parque de diversões. Você vai em vários brinquedos divertidos. Entra no trenzinho, na xícara maluca, no carrinho de bate-bate, na barca pirata e vários outros, mas ao ir a montanha-russa, no kamikaze e na casa mal-assombrada descobre que não tem altura ou idade suficiente para entrar neles. Você fica decepcionado e até fica com certa raiva, por achar injusto. Você vai ter que ficar de fora desta vez, enquanto os mais velhos vão se divertir nesses brinquedos. Você torce para crescer logo e espera que ano que vem, quando voltar neste parque de diversão, poder ir em todos os brinquedos e poder se divertir ainda mais em brinquedos mais legais.
Dois: Você ainda é uma criança. Seus pais te levam a uma festa e lá tem pula-pula, piscina de bolinhas e um circuito fechado com obstáculos, escorregador, túneis etc., além de várias outras pessoas da mesma idade que você que estão brincando nos brinquedos ou às vezes de pique-pega, pique-esconde, pega-bandeira e outras brincadeiras que vão surgindo ao fim da brincadeira anterior ou após a bronca de algum adulto falando que “aquilo não”. Entre uma e outra você vai a mesa de seus pais tomar um copo de refrigerante ou suco e comer uns salgadinhos ou cachorro-quente, enquanto as pessoas da mesa estão conversando entre si, tomando cerveja e ocasionalmente te falando para se comportar mais e comer direito.
Fim.

               Perguntas: na situação um, quem está se divertindo mais, os mais velhos ou os mais novos? E na situação dois?

               Em um, “os mais velhos” tem acesso a mais brinquedos, porém quanto mais velhos eles também perdem o interesse de ir a um parque de diversões. Em dois, “os mais velhos” só ficam sentados de forma comportada na mesa, bebendo e conversando. Por quê?? Por que não quanto mais velhos mais diversão? Pessoas mais velhas vão abrindo mais possibilidade de fazer coisas divertidas, mas eles escolhem fazer coisas mais entediantes. É simplesmente ridículo!
               É obvio que crianças também sentam para conversar e compartilhar conhecimento e informações, mas nem por isso abdicam da diversão e das brincadeiras, enquanto que os adultos trocam totalmente as brincadeiras e a adrenalina por álcool. Sem contar que muitas de suas conversas são muito mais lembranças, nostalgias e memórias relatadas do que filosofias, pensamentos ou sabedoria, ou seja, apenas “small talk”, conversa inútil para preencher o vazio entre as pessoas e o silêncio daqueles que não sabem lidar com ele.
               Indignamente pergunto o porquê. Não é possível que os humanos adultos estão sempre, e em todas as ocasiões cansados, de modo a quererem ficar sempre sentados bebendo e comendo, enquanto balbuciam alguma coisa. Sei que não é cansaço, pois são entusiasmados em seus gestos nas conversas e em mostrar o quanto conseguem beber para “se divertirem” e o quão grande será a ressaca do dia seguinte.
               Será os hormônios? Poder fazer sexo talvez iniba algo no cérebro dos primatas... Talvez eles não saibam lidar ainda com mais essa diversão liberada (conquistada pela idade). Considerando o grande número de relatos de insatisfação sexual das mulheres, essa talvez seja uma boa pista.
               Sinceramente, não me importo mais e não quero saber. Só não perco mais meu tempo com que não tenha um papo interessante e disposição para fazer algo além de “tomar uma”.
               Desviei-me de minha pretensão textual ao chegar nos exercícios mentais. Mas não quero apagar as letras já digitadas, então vamos retroceder um pouco e raciocínio e seguir por outra vertente.
               Você provavelmente já teve contato com o ditado popular “Está nervoso? Vai pescar!”. Vamos agora fazer um breve exercício mental, para extrair a sabedoria popular desses dizeres?
               Pescaria: Imagine você se arrumando para ir pescar e que por isso ficará incontactável durante este tempo. Você pega sua vara, uma bolsa-térmica com algumas bebidas geladas e sai. Chegando ao local desejável, escolhe uma sombra, coloca a isca na vara e arremessa a linha na água. Eis então o momento de respeitar a regra básica da pescaria: fazer silêncio para não espantar os peixes. E dependendo do tipo de peixe desejado: ficar com a vara e linha o mais imóvel possível, deixando um dedo na linha apenas para sentir caso algum peixe puxe. Basicamente você está agora sentado em um ambiente pacato, o mais imóvel e quieto possível, prestando atenção só no agora.
Para os mais familiarizados, isso se chama “meditação”. Por mais que na cena não envolva sentar em uma posição específica (como a posição de lótus) ou fechar seus olhos físicos, o pescador aplica a essência de estar em uma posição confortável e diminuir seu ritmo e preocupações com o mundo externo, para poder se concentrar em si próprio, deixando seu pensamento vagar por aí.
A propósito, vale a ressalva de sugestão de pesquisa: diferença entre meditação e (auto-)hipnose. Mas só para adiantar um pouco: todo tipo de hipnose (incluindo a auto-hipnose) há algum tipo de sugestão (como imaginar bolas de energia coloridas, ou relaxamentos como partes do corpo se desligando ou mergulhar em memórias e se deixar levar pelo tempo entre outras) enquanto que meditação é mais se deixar focar no seu eu aqui-e-agora, geralmente se focando nos seus conflitos internos ou não se focando em absolutamente nada, deixando sua mente vagar por onde ela queira, aceitando tanto os pensamentos ruins quanto bons.
Particularmente acho que saber essas definições e essas pequenas diferenças não é de fato útil a não ser que queira se aprofundar no assunto de forma acadêmica, pois o critério de terminologia técnica não influencia o método nem o resultado.



{Recuar e linkar o pensamento de infância com sua evolução ao longo do tempo e da mudança de perspectiva do olhar sobre o mundo ~ ângulo de fotografia} Perspectivas e estado alterado de consciência - meditação, hipnose, drogas, ...] 

*Pensar melhor no trajeto*

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