Enza

Valentino tinha acabado de se materializar as margens de uma cidade. Um local discreto, sem pessoa alguma para vê-lo surgir do nada, como foi planejado. Valentino também não era seu nome, pois nem mesmo daquele planeta ele era. Como ele queria passar desapercebido, logo pegou um dos nomes do catálogo, que eram comuns para aquela região.


Aquela era uma viagem sem muito planejamento, um presente repentino de sua família, que não o aguentava mais em casa após poucos ciclos desde o começo de suas férias. Apesar de tudo, não era uma passagem barata para um destino desinteressante e deserto, como imaginou. Algo realmente muito incomum, para os padrões de sua família. Suspeitíssimo! Mas era de graça e assim resolveu se aventurar.

A passagem era de embarque quase que imediato e o pouco tempo que teve ainda consciente antes de sua materialização foi utilizado para ouvir instruções gerais e uma pesquisa rápida sobre o planeta de destino. Básico de sobrevivência.


Após passado a tontura, Valentino olhou em volta. Viu as luzes da cidade. Aspirou aquele ar cheio de nitrogênio. Começou a checar aquele corpo para qual sua consciência tinha sido transplantada. Bem diferente do que estava acostumado, porém bem mais simples: só dois membros superiores e dois inferiores. Já se habituando ao novo corpo o qual passaria uma semana, começou a olhar as coisas dadas pela companhia de viagem. Algumas coisas eram óbvias, como os nano tradutores, porém as outras coisas nem tanto, como uns tecidos, uns papeis coloridos... Coisas que perderam totalmente a importância ao avistar nada mais nada menos que o segundo bicho mais perigoso daquele planeta.
Valentino, ficou paralisado. Tinha acabado de ler que aquela espécie era extremamente perigosa e matava centena de milhares todos os anos. A besta parecia não tê-lo percebido ainda, mas era questão de tempo. O que mais ele lera sobre aquele bicho? Nada, obviamente. Dava tempo de procurar no manual? Não. Será que era letal por ser venenoso?  << Acho melhor evitar o contato direto... Devo correr? Me posicionar contra o vento? Quanto azar... Que situação...
Okay.... A situação é pior que eu imaginava. Tem mais de um. Será que devo me fingir de morto? Acho que me notaram. Com certeza me notaram. Vou apostar tudo nessa corrida. Na cidade deve ter campos de força contra animais selvagens. Não devo estar tão longe assim. >>

Desesperado ele começa correr. Mas era mais uma rolagem morro a baixo do que uma corrida. Se equilibrar em duas pernas era um pouco mais complicado do que tinha previsto, mas era algo para se analisar depois. Sua vida estava em risco.

Ao se reerguer, ele olha para trás e não parece ter sido seguido. Descobre que é possível expressar alívio exalando o ar. Mas o alívio não dura muito. Ele olha em volta e percebe que está completamente cercado. Deve ter caído em um ninho das criaturas ou algo do tipo. O som emitido por eles era extremamente ameaçador, como se lhe agredisse os ouvidos com altíssima frequência. Não havia tempo para pensar. Valentino retoma sua corrida desengonçada e desesperada.

Em poucos metros já estava completamente habituado a correr naquele corpo, porém por mais que corresse não conseguia se livrar do perigo. Estavam por toda a parte. Já era possível ver a cidade cheia de estranhas construções verticais a poucos metros, já no pé da serra.

Sem fôlego, todo suado, sujo de terra e nu, quase que se enforcando com uma mochila de duas alças vestida errada, ele então é atingido violentamente e sai rolando metros à frente.


Antes de desfalecer desmaiado Valentino ouve de seu tradutor dizeres estranhos como “maluco, não atrevesse uma estrada sem olhar pros lados...”. Percebendo estar em contato com os nativos daquele planeta, ele então reúne suas forças para avisar sobre perigo próximo e pedir de socorro, então grita: “MOSQUITO!!!”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário