Hush now baby don't you cry
Mama's gonna make all of your
nightmares come true
Mama's gonna put all of her fears into you
Mama's gonna keep you right here
under her wing
She won't let you fly but she might let you sing
Mama will keep baby cosy and warm
Of course Mama's gonna help build the wall— Pink Floyd
[...]
I hated you, I loved you, too
Bad dreams in the night
They told me I was going to lose the fight
[...]
— Kate Bush
Como seres vivos orgânicos desenvolvemos sentimentos. Com a vivência acumulamos emoções, sensações, afetos, ternuras, dores, medos e traumas. E como em uma construção civil, as fundações e as bases determinam bastante do que é possível ser construído em cima. A infância é um período que nos dá as principais referências em nossa vida adulta. Muitas dessas referências se mantem no nível inconsciente, pois são as primeiras construções cognitivas que seu cérebro está fazendo, as quais não são feitas já de pronto no nível mais alto da abstração, com palavras, narrativa linear, coesão e coerência. Portanto é muito importante que amparemos bem nossas crianças, para aumentarmos nossas chances de termos cidadãos adultos que prosperem em sua plenitude cotidiana.
Há portanto uma grande responsabilidade sobre os ombros dos cuidadores, tutores e guardiões dessas crianças. Colocarei esses responsáveis sob o termo-guarda-chuva de "pais". Pais estes que estão destinados a falhar miseravelmente desde o dia zero, pois inevitavelmente causarão traumas em suas crianças e serão péssimos pais. Como todos predecessores foram. Como todos são.
Nossa espécie tem a incrível qualidade de evoluir, poder mudar e se desenvolver. Para nos expandirmos e crescermos, precisamos de exposição e experiência de tudo aquilo que o universo pode nos propor. Em suma, queremos sempre aquilo que não temos. Não que precisemos viver tudo em sua intensidade máxima ou mesmo o mais precocemente possível. Quanto, Como e Quando são ponderações difíceis de serem julgadas ou mesmo de serem escolhidas. Não temos controle e influência sobre a maioria de nossas próprias experiências, muito menos sobre a dos outros. Mal sabemos julgar nosso estado mental atual, imagina inferir o de outro ser.
Mesmo se seus pais forem extremamente bons e gentis contigo, você pode odiá-los por não terem te preparado para as malícias do mundo. Qualquer falha ou comportamento minimamente humano também pode ser alvo para você colocar todo seu ódio neles. Nunca serão perfeitos ou mesmo bons o suficiente. Isso porque uma geração costuma ser diferente da outra. Crescemos com diferentes referências e por tanto diferentes modos de pensar. Seus pais não vou te entender no seu âmago, pois a gente só consegue reconhecer o mundo através de nossos próprios parâmetros. O diferente é muitas vezes invisível aos nossos olhos, e quando reconhecido, outras muitas vezes, causa repulsa. O primitivo instinto de defesa: Nós contra eles.
Os traumas são agravadas quanto maior a diferença entre pais e filhos, e a carência de suprimir a necessidade destes. Um filho mais sensorial às vezes só precisava de mais abraços. Um filho mais inteligente, talvez precisasse de mais estímulos intelectuais ou uma conversa mais interessante. Um filho com afinidade para as artes seria mais feliz com lápis de cores novos, um instrumento musical ou mesmo maquiagem. Um filho com autismo ou sem autismo requerem ambos uma atenção que sigam sua lógica e forma de pensar. Porém entenda que alguém não pode ensinar sobre inteligência emocional ou linguagem corporal, por exemplo, se nem sabe que existem.
Quando crescemos, ao longo de toda a trajetória, precisamos lidar com esses traumas gerado por nossos pais. A terapia geralmente nos ajuda a encarar esses traumas, para podermos entendê-los e então lidarmos melhor com eles. Porque traumas temos e teremos todos, mas nossa resposta a esses eventos é que determinam nosso ser. Uma pessoa pode igualmente se tornar mais frágil e quebrada interiormente ou gentil e resiliente, frente a uma infância cheia de abusos e abandonos.
Outro problema é a categoria de relacionamento entre pais e filhos. Os guardiões desenvolvem esse sentimento (ou mesmo instinto) paterno/materno de cuidar da prole, o que se manifesta nesses como uma forma de amor. O problema que é um "amor incondicional", que tem como (condição a) expectativa de reciprocidade. Sendo que nitidamente é uma relação que nasce sob uma relação de dependência-e-dependente. Qualquer outro relacionamento estabelecido sob os mesmos termo (seja de amizade ou romântico) é imediatamente visto como problemático e abusivo. Isso escala, pois há então nitidamente uma hierarquia, em que um manda e outro obedece. Aos primeiros anos dessa relação (que equivalem aos primeiro anos de vida do indivíduo submisso) a criança é muito mais beneficiada que o adulto. A relação se mantem em nível de desigualdade por muito tempo (anos e anos!). Os pais porém gozam dessa autoridade e desse poder (provido pela "hierarquia natural") e têm dificuldade de abrir mão dela.
A medida que os filhos vão criando e desenvolvendo consciência, alguns são ensinados a expressar o que sentem, o que pensam e o que querem. Contudo, muitos são na verdade reprimidos de se expressarem, para não serem uma voz conflitante, que questionem ou desafiem a autoridade.
Quando finalmente é possível haver um equilíbrio na interação entre esses seres, capazes de se comunicar e executar ações, os pais não têm interesse em (progressivamente) atualizar os parâmetros da relação. Não há vantagem em perder o poder e a autoridade sobre os pequenos lacaios. Afinal, muitos veem os relacionados por sangue como na obrigação de proporcionar conforto em sua velhice. Os filhos se tornam um investimento pessoal e uma garantia; egoísta. Enfim, não se conseguem gerar a relação de igualdade e de amizade. Não há hierarquia na amizade. Alguns pais e filhos mais maduros acabam criando certos laços de cordialidade, às vezes confiança, e pseudo-amizade. Isso quando não há muito fingimento, para evitar conflitos, atritos e culpa. A culpa por não conseguir ser reciproco num amor-incondicional: ter certo carinho e ao mesmo tempo repulsa.
Por convivência acabamos por conhecer o melhor e o pior de nossos pais. Sabemos como são entre quatro paredes e como eles se apresentam para o mundo. Vemos suas máscaras e suas falsidades. Não é como se as pessoas guardassem o melhor de si só para elas. Não. As pessoas tendem a apenas mostrar o melhor de si para os outros, enquanto ocultam suas sombras. Na intimidade da convivência que descobrimos seus hábitos, falhas, vícios e hipocrisias. Conhecemos o seu melhor e seu pior, e não podemos ao menos escolher sem culpa alguma não corresponder àqueles que, de certo modo, do jeito deles, por mais horrível que sejam, têm um carinho e cuidado conosco.
Ao menos que você se encontre nos extremos, o afastamento sem culpa não é permitido. Se seus pais foram monstruosos com você (no abuso, no abandono ou na negligência), é natural que você possa (e talvez até deva) dar as costas para essas pessoas e cortar todo e qualquer tipo de relação. Porém, se você teve pais bons ou até mesmo razoáveis, você não tem motivo ou mesmo permissão de ignorá-los. Com desconhecidos sim! Você pode conhecer uma pessoa nova, uma pessoa boa, gentil e até agradável, porém que não tem a mesma vibe que você. Quando conhecemos pessoas que não achamos ser compatíveis, não tentamos cativar uma amizade ou estreitar laços. E tudo bem. O mundo não é apenas sobre gostar e odiar. Não há desprezo sob a outra pessoa, só desinteresse. Por que então somos obrigados a continuar nos envolvendo com nossos pais caso não haja essa compatibilidade? Porque isso implicaria que eles foram péssimos contigo? Na fase adulta seus pais precisam ser seus amigos? Ou são apenas "pais"? Pois como adultos, seus pais já não possuem nenhuma obrigação sobre você (perante a lei).
Após você se tornar adulto, seus pais não são obrigados a te abrigar, te alimentar, te educar ou mesmo te deixar alguma herança. Todas as prisões que lhe vinculam são mentais a este ponto. Mesmo as pressões sociais, são apenas correntes mentais. Você não é obrigado a obedecê-los. Não mais. Não perante a lei. Porém a prisão mais difícil de se libertar é a mental. Após décadas sob uma relação de submissão, você provavelmente se manterá submisso. Assim como um escravo que passou a vida toda sendo um escravo, já não sonha mais com a liberdade; Ou ao mesmo uma realidade diferente de sua condição atual. Mesmo com a alforria em mãos, não sabem o que fazer. Você pode odiar seus mestres, você pode se arrepender de estar em sua presença, mas mesmo assim você tenta agradá-los. Existe sempre o medo. O temor. Algo que se camufla como respeito.
Adolescência é o ponto crucial. A criança sob a tutela dos guardiões, obedeceu-os e observou-os por tanto tempo, e copiou seus comportamentos (afinal eles são sua referência). Muito da criança é simplesmente uma cópia dos que a criaram e a educaram. A consolidação da cultura no ser. Uma mini versão e depósito de seus antepassados (vivos). A adolescência com sua rebeldia é o momento que aquele pequeno ser começa a confrontar seus pais e separar dentro de si, o que de fato é ele e o que de fato lhe foi imposto. Isso, quando a rebeldia não é suprimida. Quando a entropia, o caos, a confusão e mistura de sentimentos e pensamentos não é abafada, contida ou negada. Apesar de tudo, ninguém quer decepcionar nossos pais. Pois quando criança nossos pais e professores são tudo o que conhecemos, são nossos heróis, são portadores do conhecimento; i.e. eles têm nosso respeito. Por pura inocência e ignorância construímos respeito naqueles que tanto tinham a nos oferecer. Mas na adolescência questionamos esse status, essas sabedorias, esses conhecimentos enviesados e até se realmente podemos ao menos confiar nessas pessoas.
Obviamente testamos os limites do que é possível e até onde é possível fazer as coisas. Particularmente em minha família eu descobri que eu não podia nunca e jamais confiar segredos a meus pais, por menores que fossem e mesmo pedindo explicitamente discrição. Por que meus sentimentos eram ignorados e eu era traído tão constantemente sem propósito? Mais tarde descobri e entendi que as estruturas sociais humanas primitivas básicas são a fofoca. Passei minha vida inteira vendo minha família fofocar uns com os outros, julgando e falando mal de tudo e de todos. Vi que os assuntos mais virais e preferidos eram as doenças, tragédias e infortunos. Além de toda conquista minha alcançada nunca era minha, mas de meus pais, para ser exibida com orgulho deles.
As coisas se tornam cada vez mais difíceis quando você começa a se desenvolver fora das projeções deles, e.g. se você começa a gostar daquilo que seus pais odeiam. Você não come a comida que seus pais detestam. Você não ouve a música que seus pais não gostam. Você não tem nem acesso àquilo que eles não julgam como 'bom' a eles. Você não se expressa fora do vocabulário deles: é proibido xingamentos e gírias na frente deles. Na frente deles!
Tomamos cuidado para não nos expressarmos em nossa plenitude perto de nossos pais, e de considerar e calcular cada movimento e palavra proferida perto deles. Pois até mesmo usar palavra (que muito provavelmente você ouviu primeiro da boca deles, não de estranhos) lhe trará punição. Além de todos os demais tabus. Sexo é extremamente proibido. Nada é mais desconfortável que assistir um filme com uma cena de sexo perto de seus pais. Ou mesmo tratar sobre masturbação ou nudez. Outras vezes discutir religião é um tabu ainda maior, pois religião demanda fé e fé é não questionar. Lembrando sempre a hierarquia da relação: os pais têm a razão. Por isso muitas das vezes os filhos têm a mesma religião dos pais. Os filhos são a decantação da cultura.
Infelizmente hoje em dia mantemos os adolescentes tão ocupados e regrados sob a supervisão intensa de uma escola e objetivos que requerem absoluto foco, como inúmeras provas, atividades e vestibulares, que mal há tempo para se rebelar. Como dito e reforço: a revolta é essencial para o desenvolvimento próprio. Além de que os pais já não conseguem prover tudo o que o filho precisa. Enquanto na infância os filhos requerem contato e convívio frequente, o adolescente requer privacidade e menos ruído, para ele se descobrir fora da esfera de influência dos pais. Sobretudo, os pais deveriam ter que se adequar mentalmente a necessidade dos filhos conforme estes mudam. O jeito de tratar uma criança de 4 anos é diferente de tratar uma de 8 e outra de 16. O problema que não conseguimos ser tão flexível assim para adequarmos perfeitamente ao nível atual da criança. Forçando a criança a ter que se adaptar ao adulto. Até onde é possível.
Na parca liberdade da adolescência o filho pode enfim procurar em outros aquilos que preenchem as suas necessidades (que podem ser grandes buracos, conforme a diferença pais e filhos). [Um introvertido numa casa cheia de extrovertidos, pode ser um inferno.]
Por fim, gostaria de falar brevemente das paredes que erguemos para nos proteger. Ou melhor ainda: das máscaras. Pois aprendemos desde cedo a nos comportarmos diferentemente conforme a situação demanda. O que é maravilhoso. Saber nos adaptar e adequarmos a situação. Porém aprendemos a usar máscaras na forma ruim também: de forma a ocultar, dissimular e omitir. Muitas das vezes pelo medo e receio do julgamento alheio. Pouco nos ensinam a lidar com isso. E conforme temos gostos e opiniões diferentes dos que estão por perto, passamos a usar cada vez mais máscaras. Escondemos parte de nós (de nós mesmo inclusive), para sermos aceitos. Pertencimento nos é algo muito importante.
Porém, máscaras não são ruins. Desde que usadas corretamente. Máscaras podem aflorar suas personalidades. Uma máscara pode te trazer anonimato o suficiente para que você possa se expressar sem medo do julgamento. Um mero nariz de palhaço e uma tinta no rosto talvez seja a licença poética suficiente que você precise para se permitir impersonar um personagem livre. Pois crescimento e evolução requer exposição. Requer tentativas e erros. Requer referências. E o medo sempre nos impede de arriscar, de nos expormos e de nos explorarmos.
Não é sobre proteger! O escudo que te protege, não bloqueia apenas aquilo que se acha ser perigoso. Muitas vezes bloqueia também sua visão do que está a frente e ao redor. Não há progresso no conforto. Debaixo do acolhimento protetivo dos pais. Precisamos sim de amparo, de ajuda, de incentivo e às vezes de um porto seguro para descansar entre uma batalha e outra. Mas precisamos encarar nós mesmo os problemas e as dificuldades, pois aprendemos também com os erros. Não aprendemos é na estagnação. Sob a constante e eterna proteção. O amor parental por fim, baseado no sentimento de proteção, talvez seja o pior que podemos ter. E talvez o único tipo que exista. Porém no fim talvez queiramos todos apenas amizades. Uma relação de crescimento mutuo e de equidade. Companherismo e cumplicidade para transformar nossos traumas em resiliência e sabedoria. Companhia para deixar para trás as fundações abaladas e procurar expandirmos e aprofundarmos em novos terrenos.
Is there anybody out there?
The blood of the covenant is thicker than the water of the womb.
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